Wilson Hoffmeister: da febre aftosa à raiva bovina

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#AfagroEmAcao ~ Especial | Série de entrevistas

Prestes a completar 22 anos como servidor do Estado, o fiscal estadual agropecuário Wilson Hoffmeister Junior, 51 anos, tinha pouco tempo de serviço oficial quando vivenciou uma das situações que mais marcaram a sua trajetória profissional: os últimos focos de febre aftosa no Rio Grande do Sul, entre 2000 e 2001. “Foi emblemático porque mudou toda a concepção de aftosa no Rio Grande do Sul, no Brasil e no mundo”, avalia Hoffmeister.

Formado pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), o médico veterinário ingressou na Secretaria da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural (Seapdr) em agosto de 1997. Atualmente, Hoffmeister integra o grupo de emergência sanitária da pasta, iniciativa destinada ao atendimento de algum evento sanitário que possa vir a ocorrer.

Natural de Cruz Alta, o fiscal começou na inspetoria de Coronel Bicaco, onde ficou um ano e ajudou a regulamentar um frigorífico de bovinos, mas também atendia municípios vizinhos. Na época, a Agricultura tinha recebido “de presente” da saúde a inspeção de frigoríficos. Foi quando aumentou a demanda de trabalho para veterinários.

Em 1999, Hoffmeister foi removido para o município de Condor, onde trabalhava na inspeção de bovinos e suínos na cooperativa Cotripal. Neste período, estavam sendo criados os programas de certificação de qualidade da carne que, até os dias atuais, tem como objetivo remunerar mais pelas melhores carcaças.

Em 2000, foi transferido para a inspetoria de Ibirubá, onde atuava como supervisor Cispoa da regional Cruz Alta e também na inspeção de um frigorífico pequeno da Cotribá. Neste ano, o Estado chegou a anunciar a retirada da vacina contra a febre aftosa. Naquele tempo, a primeira etapa da imunização era feita em janeiro e a segunda em maio.

Mas em agosto de 2000 todos foram pegos de surpresa com a reintrodução da doença no município de Joia, onde foram identificados 19 focos de febre aftosa. O fato teve grande repercussão, pois foi a primeira notificação internacional de ocorrência da doença na região do Cone Sul. O Estado não registrava focos da doença desde o início dos anos 80.

A comoção do caso de Joia

Foi em meio ao caos da reintrodução da febre aftosa no Rio Grande do Sul que Hoffmeister conheceu praticamente todos os colegas da secretaria. Praticamente todo o Estado se mobilizou para atender o caso de Joia, que se estendeu até março de 2001.

Os animais eram recolhidos nas propriedades e desembarcados dentro de uma vala. Depois, a Brigada Militar era responsável pelo abate dos bovinos com arma de fogo. Ao final, antes de cobrir com terra, cabia aos fiscais estaduais agropecuários o trabalho de abrir todas as carcaças no abdômen para evitar o acúmulo de gases.

Hoffmeister lembra como se fosse hoje a comoção no momento do recolhimento dos animais. Os casos mais marcantes eram os das crianças que, após a explicação sobre a gravidade da doença, aceitavam entregar seus cordeiros. “Isso era uma bomba psicológica. A gente tinha que empenhar a nossa palavra”, recorda, referindo-se à incerteza sobre as indenizações.

O fiscal agropecuário também lembra do último animal abatido em Joia. Para surpresa da equipe, o terneiro foi encontrado escondido no meio do mato, fato inesperado que motivou o registro fotográfico na hora da despedida. Em 2001, os últimos focos da doença no Estado foram registrados focos em Alegrete, Santana do Livramento e Rio Grande.

Na ocasião, O Ministério da Agricultura e o Governo do Estado aportaram recursos para as indenizações. “A febre aftosa é uma doença econômica, o gado perde peso. O fator principal é que o vírus se espalha muito rápido”, alerta sobre a alta dispersão da aftosa.

Para acompanhar a doença nas propriedades onde foram identificados os focos de febre aftosa, foram usados animais sentinelas – terneiros que nunca foram vacinados e, portanto, funcionavam como uma espécie de alarme que poderia emitir um sinal de alerta. Periodicamente, os fiscais visitavam os locais para verificar as condições de saúde dos bovinos.

Só no município foram abatidos 11.087 animais. Foi então que o veterinário pode verificar, na prática, a gravidade da febre aftosa. “O nosso Estado depende da sanidade animal”, ressalta Hoffmeister. No ano seguinte, recorda, o serviço oficial começou a trabalhar muito forte com barreiras de fronteira. Isto porque também havia focos na Argentina e Uruguai.

Na época do fusca e da máquina de escrever

De lá pra cá, muita coisa mudou, a começar pela substituição das máquinas de escrever e dos dados off-line pelo sistema informatizado que permitiu a organização online das informações. “Hoje é feita coleta de dados e prevenção. Antes de 2000, tinha mais trabalho a campo, era mais assistencialista, e hoje é mais voltado para os programas”, avalia o veterinário.

No que diz respeito à estrutura do Serviço Oficial, o fiscal avalia que em duas décadas o avanço foi expressivo. Os veículos destinados ao deslocamento das equipes, por exemplo, são infinitamente mais apropriados para a atividade.

Nos anos 2000, a Secretaria da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural (Seapdr) recebeu as primeiras caminhonetes destinadas ao trabalho com a febre aftosa. “Antes, era só Fusca ou Fiat, inclusive o 147”, recorda.

Nada contra os modelos que tanto quebraram o galho nas horas de aperto, muito pelo contrário. Ocorre é que as estradas nas zonas rurais, na maioria das vezes, têm a pavimentação precária, condição que compromete o desempenho dos veículos mais populares nas zonas urbanas.

“Houve uma evolução muito grande na estrutura física das instalações e também nos equipamentos dos frigoríficos”, afirma. Como exemplo, lembra que antes eram usadas mesas de madeira, material de difícil higienização, e que atualmente são permitidos materiais como o aço inox.

Desbravando refúgios

Em 2002, o fiscal estadual agropecuário começou a trabalhar no Núcleo de Controle da Raiva, doença que todos os anos registra focos no Estado. Em média, são 40 focos por ano. Entretanto, este número já foi menor.

Nesta época, foram entregues as primeiras caminhonetes para a equipe que trabalhava no Núcleo da Raiva. Até então, eram utilizadas as famosas Kombis e Jeeps Toyota, que até hoje fascinam muitos.

Em 2003, voltou para Cruz Alta como supervisor, função que ocupou durante três anos. Atualmente, é coordenador do Programa de Controle da Raiva Herbívora no RS. “Sou conhecido como o Wilson dos morcegos”, brinca.

“O que marca mais é aquele refúgio mais difícil de chegar”, conta, lembrando da vez que foi necessário construir uma escada de aproximadamente 30 metros para entrar em uma furna.

Mas os obstáculos não são só terrestres. “Em muitos refúgios só se consegue chegar de barco”, relata Hoffmeister. O fiscal recorda a ocasião em que foi preciso atravessar o Rio das Antas de caíque. Durante o trajeto, a equipe percebeu que por menos de dez centímetros a água não entrou no barco.

Essas expedições contemplam caminhadas de três a quatro horas no meio do mato até encontrar o refúgio. Certa vez, já aconteceu de ficarem perdidos na mata esperando o dia amanhecer para se localizarem.

Mas uma das situações mais marcantes vivenciadas por Hoffmeister aconteceu em Hulha Negra, quando foi revisar um refúgio no qual era necessário se abaixar para entrar na caverna. Chegando lá, se deparou com camas de javalis que haviam saído recentemente lá de dentro.

“É o risco que a gente corre com animais silvestres”. Caso o encontro tivesse ocorrido, os javalis poderiam ter atacado a equipe, ressalta Hoffmeister que, por meio da sua história, deixa evidente a versatilidade do fiscal estadual agropecuário. Um servidor que trabalha em várias frentes, desde ambientes higienizados, com estruturas de aço inox, até no meio do mato e lugares inóspitos como dentro de uma caverna, para garantir a saúde no campo e a qualidade dos alimentos.

Entrevista e reportagem: Bruna Karpinski, jornalista Afagro
Foto: Arquivo Pessoal/Wilson Hoffmeister

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