Michelle Rodrigues: da preparação teórica à confirmação dos danos do 2,4-D

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#AfagroEmAcao ~ Especial | Série de entrevistas

As alterações causadas nas plantas atingidas pela deriva do agrotóxico 2,4-D eram, até então, sintomas que a agrônoma Michelle Cristine Rodrigues Gomes 28 anos, só tinha visto ao longo de sua formação, durante o curso de especialização em Proteção de Plantas. Foi no final de 2017, ano em que iniciou a pós-graduação pela Universidade Federal de Viçosa, que a fiscal estadual agropecuária percebeu que havia feito a escolha certa para dar conta dos desafios que surgiriam na região da Campanha.

Em 2014, quando assumiu a função, aos 23 anos e recém formada, Michelle estava pronta para o novo. E assim foi quando, em outubro de 2017, a fiscal recebeu na inspetoria de Dom Pedrito a visita de uma viticultora que relatou problema de deformação nas folhas do parreiral. Apesar de relatos semelhantes na safra anterior, esta foi a primeira vez que o Serviço Oficial recebeu formalmente informações sobre os prejuízos. Não demorou muito para outros produtores procurarem a fiscalização, totalizando nove denúncias nos últimos três meses daquele ano, só naquela região.

Michelle conta que já tinha visto fotos de plantas afetadas pela deriva do 2,4-D nos materiais apresentados pelos professores durante a especialização, mas que nunca tinha se deparado com o problema “ao vivo”. “Era tudo muito novo e não tínhamos estrutura pra fazer coletas”, recorda. Entretanto, isto não foi um impedimento. Diante dos danos, os viticultores se prontificaram a pagar pelas análises, medida que agilizou processo. “A agilidade é muito importante para a coleta da amostra”, destaca a agrônoma.

Na ocasião, a fiscalização se comprometeu em coletar e acondicionar o material que seria analisado. Já os produtores ficaram responsáveis pelo envio das amostras ao laboratório, pelos Correios. O objetivo era verificar a existência de resíduos do 2,4-D para confirmar a suspeita de que as alterações no vinhedo estavam ocorrendo por conta da deriva do produto. Cada análise custa, em média, R$ 700,00. Das três amostras analisadas de outubro de 2017 a janeiro de 2018, uma foi positivas para a presença do agrotóxico. Era a peça necessária para que se desse início a um amplo e aprofundado trabalho de pesquisa.

Os sintomas do 2,4-D

“O 2,4-D quase que faz uma assinatura, porque é muito característico. Ele age nas células de crescimento da planta e promove um crescimento desordenado das células”, explica Michelle. “Ocorre o desenvolvimento irregular das folhas e fica uma rugosidade estranha. Todos os produtos hormonais têm essa assinatura”, acrescenta a agrônoma sobre os sintomas. Em fevereiro e março do ano passado, começaram a chegar mais e mais relatos. Mas foi ao longo de 2018 que Michelle viu o problema tomar proporções inimagináveis no Estado.

Só na região da Campanha, foram 31 denúncias de áreas atingidas, totalizando 40 amostras coletadas. Deste total, 90% tiveram resultado positivo para a presença de resíduo do 2,4-D em 2018. “Foi um surto de denúncias”, recorda, acrescentando que a situação também ocorreu em municípios da regional de Santa Maria, como Jaguari, e da regional de Lagoa Vermelha, como Vacaria. No ano passado, as análises das amostras foram custeadas com recursos do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin).

O resultado de todo este trabalho, que em 2018 reuniu esforços de fiscais estaduais agropecuários de todas as regionais do Estado na coleta de amostras, foi transformado em relatório enviado ao Ministério Público do Rio Grande do Sul (MP/RS). O documento serviu de base para inquérito que investigou o caso e resultou na publicação de quatro instruções normativas (IN 05, IN 06, IN 08 e IN 09), em julho e agosto de 2019, que estabelecem medidas para evitar que a deriva de agrotóxicos hormonais sigam causando prejuízos.

Neste ano, a inspetoria de Dom Pedrito ainda não recebeu denúncias. A aplicação do 2,4-D na etapa de pré-plantio da soja iniciou no final de agosto. “A nossa esperança é que o produtor se conscientize e tenha mais critério na hora de aplicar o 2,4-D”, reflete Michelle.

Outras culturas afetadas

Confirmada a ação tóxica dos 2,4-D nos vinhedos, surgiram relatos de prejuízos em outras culturas sensíveis, como as oliveiras. “Algumas propriedades com parreirais também têm oliveiras. As folhas pareciam que estavam ao contrário”, relata Michelle, lembrando que as folhas das árvores se enrolavam. A presença de resíduo do agrotóxico nas oliveiras também foi confirmada por meio de coleta de amostra e análise em laboratório.

Em Vacaria, os laudos deram positivo no cultivo de maçã, e em Pelotas, na análise de hortaliças. Na região da Campanha, a fiscalização ainda confirmou a presença de resíduo do 2,4- D em amostras de pastagem nativa e maria-mole – planta com flor amarela encontrada nos campos, também chamada de flor de finados e vassoura mole. Mas o mais surpreendente foi constatar a presença de resíduo até em árvores cinamomos na área urbana de Santana do Livramento.

“Os cinamomos mostraram que os sintomas do agrotóxico também entraram na cidade”, alerta Michelle. A agrônoma ressalta que não há como saber se a alteração foi causada por deriva da aplicação do 2,4-D na zona rural ou pelo uso de produtos com o mesmo princípio ativo por moradores do entorno.

Da UFPR para a Campanha

Natural de Curitiba (PR), Michelle formou-se no início de 2014 pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Prestes a concluir a graduação, fez o mais recente concurso da Secretaria da Agricultura do Rio Grande do Sul (Seapdr) para a função de fiscal estadual agropecuário. Foi nomeada em 2014 e, desde então, atua na inspetoria de Dom Pedrito. Atualmente, é responsável pela fiscalização agropecuária da área vegetal nos sete municípios da regional de Bagé: Hulha Negra, Candiota, Aceguá, Lavras do Sul, Caçapava do Sul, Dom Pedrito e Bagé.

Antes de Michelle ser nomeada, a regional de Bagé não contava com fiscal da área vegetal. Embora os vinhedos sejam antigos e também caracterizem o perfil produtivo da região, sempre predominou a pecuária. Quando era necessário, colegas agrônomos de outras regiões se deslocavam até os municípios desta regional para ações específicas. Mas com o avanço da soja nos últimos dez anos, este cenário demandou a presença de um agrônomo na fiscalização agropecuária da região. Foi quando Michelle entrou em cena.

Nos municípios da regional, Michelle é responsável pelas tarefas que cabem ao fiscal estadual agropecuário da área vegetal. A rotina diária inclui o monitoramento de pragas, passando pela fiscalização do receituário agronômico na compra de agrotóxico, dos depósitos de agrotóxico nas propriedades e devolução das embalagens, até a fiscalização de contrabando.

Uma nova frente de trabalho

Nas atividades que envolvem maior risco, Michelle conta com a parceria de dois colegas agrônomos da regional de Uruguaiana que atuam na inspetoria de Santana do Livramento, distante 90 quilômetros de Dom Pedrito. “A gente é um trio. Estamos sempre, no mínimo, entre dois. Porque fiscalizar sozinho é difícil”, ressalta.

Atualmente, o 2,4-D é o que demanda mais tempo de trabalho. “Se criou um novo ramo da nossa atuação. Com a denúncia, a fiscalização agropecuária começou a dar um olhar mais atento pra isso”, avalia Michelle. Nesta nova realidade, a regional de Bagé teve algumas melhorias na estrutura de trabalho, entre elas uma caminhonete adquirida com recurso do Fundo de Desenvolvimento da Vitivinicultura (Fundovitis).

“Para mim é muito motivador ver a proporção que tomou o 2,4-D. Eu fico feliz de ver o quanto isso caminhou, não só por mim, mas pelos outros colegas agrônomos. Tivemos um grande apoio da Divisão de Insumos e Serviços Agropecuários e da Divisão de Inspeção de Produtos de Origem Vegetal”, avalia Michelle.

Reconhecimento merecido

A agrônoma refletiu ainda sobre as dificuldades enfrentadas pelos servidores. “Eu poderia ter ficado acomodada, ou, enfim, não tratar aquilo com tanta curiosidade, sabe? Mas a gente resolveu investigar o que estava acontecendo, e estudar, porque precisou muito do apoio da literatura, do estudo, pra gente entender o que estava acontecendo. Eu preferi enfrentar a situação, e eu sabia que não seria fácil”, afirma.

Segundo Michelle, o que mais mudou neste período de cinco anos, desde que assumiu a função, foi o reconhecimento da comunidade local de que existe um serviço oficial na área vegetal. A agrônoma conta que antes, muitos questionavam o porque da necessidade. “Hoje as pessoas já sabem e já reconhecem a importância e até procuram com demandas. Se construiu, se materializou um trabalho. É uma mudança social e de cultura, a gente vê uma evolução”, avalia Michelle na esfera local.

Entretanto, considerando a realidade estadual e nacional, pontua que ainda há um longo trabalho pela frente para se avançar na conscientização sobre a importância de todas as atividades desenvolvidas pelos servidores na função de fiscal agropecuário. “Gradualmente, a população está descobrindo o nosso papel e cada vez mais apoiando nossas ações”, avalia.

Entrevista e reportagem: Bruna Karpinski, jornalista Afagro
Foto: Macilon Vargas

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